1917 (2019) | Crítica

A Primeira Guerra Mundial ganha uma experiência imersiva nas mãos do diretor e artesão Sam Mendes, que impulsiona seu drama de guerra, 1917 (2019), com a difícil técnica de apresentar um único plano sequência por todo o filme, sem nenhum corte aparente, do início ao final. Apesar da trama simplista, de coadjuvantes pontuais limitados e da inegável influência de outros grandes filmes de guerra como O Resgate do Soldado Ryan (1998), Desejo e Reparação (2007) e Dunkirk (2017), são nos games realistas de tiro em primeira pessoa, como Counter Strike (1999), Medal of Honor (1999), Battlefield (2002) e Call of Duty (2003) que o novo filme encontra maior ressonância, trazendo uma perspectiva marcante ao filme de Mendes, que poderá sair como o grande vencedor do Oscar 2020. Veja Prévia:

Trama – A missão recebida pelos jovens mensageiros Blake (Dean-Charles Chapman, de Game of Thrones) e Schofield (George MacKay, de Capitão Fantástico) parece simples e rotineira. Entregar uma mensagem ao Segundo Batalhão do Regimento de Devonshire, do Exército Britânico, para abortar um ataque contra o exército alemão, previsto para o amanhecer seguinte. Entretanto, para conseguir entregar a mensagem, em tempo hábil, será necessário atravessar quilômetros de trincheiras, passagens subterrâneas, armadilhas, campos abertos, cidades em ruínas, atiradores escondidos e ataques aéreos em território inimigo, numa tensão constante e crescente, intensificada pelo longo plano sequência que mergulha o espectador nos horrores e atrocidades da guerra, de cem anos passados.

Imersão – A câmera acompanha os protagonistas como um cinegrafista de documentário, correndo ao lado deles, descendo as trincheiras e tuneis, escalando as colinas e ruínas, mergulhando em rios e poças de lama. Como se o grupo tivesse três integrantes, sendo um deles, o próprio espectador. O que intensifica o sentido de urgência e a tensão contínua, enquanto avançam em terreno desconhecido. A mensagem precisa ser entregue a todo custo. Do contrário, mais de mil soldados serão chacinados numa emboscada dos alemães. Além disso, o tenente Joseph Blake (Richard Madden, de Game of Thrones), irmão do próprio mensageiro, também é integrante do batalhão, no risco de ser massacrado. O tempo é o pior inimigo.

Produção – Mendes utiliza sabiamente todos os recursos ao seu dispor. Uma impressionante reconstituição de época. A fotografia que privilegia a visão subjetiva, inserindo o olhar do espectador no cenário caótico. A trilha sonora que ajuda a manter a tensão constante na trama. A habilidade de Mendes em ocultar os cortes espertos ao longo do filme para simular um único plano sequência em toda a produção. A sucessão de situações episódicas do filme dá ao espectador a impressão de jogar um game dividido em estágios pontuados por grandes desafios.

Participações – Com tanto enfoque na trama central, Mendes precisa sacrificar seus coadjuvantes de destaque, espalhados ao sabor da situação enfrentada. Eles são reduzidos a pouco tempo de tela, perdendo em brilho e impacto, mesmo sendo representados por grandes nomes como Andrew Scott (Sherlock), Benedict Cumberbatch (Sherlock, Doutor Estranho), Colin Firth (Kingsman, O Discurso do Rei) e Richard Madden (Game of Thrones).

DiretorSam Mendes conquistou o Oscar de Melhor Diretor e Melhor Filme, no início de sua carreira, com o drama Beleza Americana (1999) e realizou grandes obras como Estrada para Perdição (2002), Soldado Anônimo (2005), 007 – Operação Skyfall (2012) e a sequência 007 Contra Spectre (2015). Sua vasta experiência como diretor de diversos gêneros, fortalece 1917 não apenas como um dos grandes filmes da Primeira Guerra Mundial e um dos maiores dentro do gênero Guerra, como também um possível grande vencedor do Oscar 2020. Sendo uma experiência imperdível, especialmente, numa sala de cinema.

Técnica – O uso da técnica de grandes planos-sequência são sempre celebrados nos filmes, pelo imenso desafio técnico para produzir. Afinal, um único erro durante a filmagem obriga a produção a ter de refazer todo o trabalho ou a sequência, o que exige muitos ensaios antes das filmagens. Imagine para um filme inteiro. Os recursos digitais atuais facilitam o surgimento de novas produções, mas a técnica não deixa de ser desafiadora. O suspense de Alfred Hitchcock, Festim Diabólico (1948), foi o primeiro a chamar a atenção para a técnica. Hitchcock é forçado a marcar o filme com cortes porque ele só consegue filmar o máximo de tempo permitido em cada rolo de película. Cerca de dez minutos. São através de truques, que o diretor disfarça os cortes e mantem a impressão em seu filme, como se fosse uma única filmagem. Outros exemplos de filmes inteiros com a técnica são Time Code (2000) e Arca Russa (2002), com destaque para Birdman (2014) que conquistou o Oscar de Melhor Filme, Direção, Roteiro e Fotografia.

Tema – O contexto da Primeira Guerra Mundial rendeu grandes filmes como O Grande Desfile (1925); Asas (1927), a primeira produção a vencer o Oscar de Melhor Filme; Nada de Novo no Front (1930); Adeus às Armas (1932); A Grande Ilusão (1937); Glória Feita de Sangue (1957); Lawrence of Arabia (1962); Gallipoli (1981); Eterno Amor (2004) e Barão Vermelho (2008). Certamente, 1917 integra com facilidade essa relação temática.

Classificação:

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