Se aventurar em fábulas modernas encorpadas em roupas arcaicas parece ser um atrativo interessante e divertido de se ter em momentos de marasmo cultural. Longe de mim querer definir momentos no tempo como se fosse um expert da história da arte (no caso do cinema). Mas é perceptível como obras que se limitam a um tempo específico se tornam objetos de obsessão de si mesmas e acabam enfrentando problemas narrativos que não conseguem se libertar tão facilmente.

‘Cidade de Gelo’, da Netflix, se torna um filme complexo não pela sua estética ou história, mas pelos caminhos que sua narrativa decide se aventurar de forma muito corajosa mas também muito ingênua.

Por se tratar de um arquétipo básico do ‘boy meet girl’ a história ambientada na virada do século 18 para o 19 consegue ser facilmente assimilada e não se torna um empecilho narrativo quando as coisas pendem para o piegas e cafona para justificar o ‘love story’ que está se formando diante de nós.

Porém, os problemas narrativos do filme está longe de serem por culpa da história de amor ambientada numa Rússia pré revolução de 1915. O que peca aqui é tentar transformar em épico algo que não precisa disso para ser grande.

As escolhas de direção aqui são acertadas quando não se prende na história avulsa que tenta ser contada aqui. O grupo de ladrões funciona mesmo na excessiva caricatura dos seus membros. Até a história cafona e datada do pai aristocrata que reprime sua filha feita para brilhar não parece ser o maior dos problemas aqui.

O erro está na forma de interligar tudo quando vemos tramas desnecessárias e personagens opacos ganhando espaço para que algo maior seja contado para quem está assistindo, transformando o que deveria ter maior destaque (os protagonistas) em mero coadjuvantes de suas próprias histórias.

O balé do roubo no gelo é interessante (lembra um pouco de ‘Bresson’, talvez) e a ambientação de uma São Petersburgo gelada e desigual socialmente são o ponto forte dessa história de amor que se perde tentando fazer muitas críticas sociais.

 

Classificação:

Dirigido por Michael Lockshin e escrito por Roman Kantor, o longa alemão ‘Cidade de Gelo’ chegou à Netflix esse ano.