Mergulhado num angustiante e tenebroso thriller, ‘Tempo’ de M. Night Shyamalan convida o espectador comum nesse mês de julho à compreender através de uma alegoria “hard-core”, as várias nuances da vida. Todavia, o filme falha sistematicamente em sua proposição e desfecho, deixando para trás perguntas importantes que não serão respondidas.

O cineasta M. Night Shyamalan tem como característica marcante deixar uma assinatura quase que particular nas obras que toca. Vez por outra, algumas de suas produções podem sofrem influencias de outros trabalhos, mas a sua singularidade é presente quase que inconscientemente, o que o leva sempre a outro patamar na atual academia cinematográfica. A quem o ame, ou o odeie. ‘Tempo’ é um desses filmes. Com sua narrativa misteriosa, grosseira, porém efetiva, o filme tenta transpor os limites do comum. ‘Tempo’ é um sufocante thriller, e parece funcionar, mas… A base para todo esse texto é no mínimo desconcertante e nada empática.

A família Cappa procura numa viagem ao litoral paradisíaco de um dado país algo que os lembrem a sua existência, na perspectiva de curar as próprias feridas. Convidados para uma praia afastada, isolada – um verdadeiro refúgio dentro de outro – os pais, Guy (Gael Garcia Bernal) e; Prisca (Vicky Krieps) procuram o melhor momento para contar sobre a separação do casal as crianças. A principio aquela unidade familiar não estava tão sozinha, outros quatro grupos também se deslocaram para tal ambiente quando uma morte misteriosa ocorre. Mas, pasmem… Esse não será o fato estranho: A taxa de envelhecimento no local é rápida, logo os minutos tornam-se dias.

Lidar com esse tema, a morte associada ao tempo é algo quase surreal. Muitos de nós evitamos tocar no assunto, apenas tentamos “viver e deixar viver”. Essa aposta de Shyamalan foi no mínimo interessante, até audaciosa, mas a sua aplicação foi vazia e sem crédito. Ele deixara de explorar as várias dicotomias, dimensões que cercam a vida. Praticamente Shyamalan deitou-se sobre frases curtas, vazias e desconexas na perspectiva de preencher os inúmeras arrojos que é a vida: digamos que faltou tempo ao ‘Tempo’. Todavia, vale salientar que o crime dele está em seu nascedouro. Obviamente, para ocasionar esse efeito ideal, acertar, o diretor e também roteirista deveria transformar o produto numa série, explicando, explorando mais os personagens, pois o que nos foi apresentado é um longa que possui diversas mazelas: Como a falta de conectivos, discursos mequetrefes, ideias jogadas e arcos vazios. E com todos esses crivos, é impossível não criar tecnicamente uma postura negativa sobre o filme.

Quando ainda deslumbrados pela ideia, Shyamalan nos traz à tona sobre a realidade resumitiva e autoexplicativa do plot-twister, o que posso considerar como uma escolha muito simples para o texto. Ou seja, se ‘Tempo’ fosse um quadro, o diretor/pintor esteve sobre algo promissor, e escolheu uma saída frágil e danosa.

E se os erros são culpa de Shyamalan, os bons momentos também são. O sentimento proposto, mesclado a trilha sonora sufocante funcionou até bem mais do que o desejado [e isso muito legal na trama]. Os cortes secos, precisos são marcas de seu trabalho, tudo isso envoltos num terror psicológico.

Repleto de boas ideias, mas com problemas sérios em sua execução, podemos classificar ‘Tempo’ como um “cinema” acima da média, inteligente e até intrigante. No entanto, os seus erros, a sua falta de profundidade o equiparam à produções medianas, de diretores de gosto duvidoso.

 

Classificação:

‘Tempo’, da Universal Pictures, chegará aos cinemas nacionais hoje (29).

By Amauri Alves

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante (...) Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo