O cinema é verdadeiramente uma arte, nele podemos nos enxergar, nos revisitar, e visualizar os outros; compreender momentos históricos marcantes; analisar com profundidade a vaidade humana, a nossa; apaixonar-se e na mesma medida odiar a si e a terceiros; respirar e inspirar.

Nesse quase bucólico ambiente, nem todos conseguem fazer arte, e arte eivada de sentimentos. Vivemos um tempo em que o mecanicismo invadiu a arte e é quase impossível saber dissociar ambas. E o que Jordan Peele (“Corra!”; “Nós”) e Nia DaCosta (“The Marvels”) propõem aqui é arte. Perfeita? Não! Mas, arte. Arte de ruptura, arte que carrega o “sangue negro” e deixa claro o quanto os seres humanos podem ser cruéis por não aceitar as diferenças, e pasmem vocês, caros leitores, baseado num soneto angustiante de terror. Este foi “A Lenda de Candyman”, da Universal Pictures.

O folclórico personagem, Candyman encaixa-se nos ditos populares e urbanos presentes em todo o Mundo. Aqui, em Pernambuco por exemplo, possuímos um verdadeiro celeiro de entidades que se misturam a nossa cultura e aterrorizam a sociedade através do tempo. Mas voltando a trama, Candyman possui várias histórias de origem, como demostrado no longa, o que pode parecer confuso, converge no racismo estrutural e atemporal presente em todo canto do globo, seja num amor proibido entre um negro e uma branca do Séc. XIX ou na violência policial dos atuais dias. E essa expansão, claramente foi proposital, tornando a nossa história ainda mais profunda, dantesca, reflexiva e próxima do nosso cotidiano. Porém, a quantidade de informações pode “assombrar” o público.

Sobre o terror em si, “A Lenda de Candyman”, da Universal Pictures funcionou em todos os sentidos, seja nos aspectos psicológicos, slasher e sobrenatural. E essa miscigenação é ordeira, caoticamente bela e de uma pegada bem referencial – é só lembrarmos dos trabalhos de Peele, frente aos elogiados “Corra!” e; “Nós”. Logo, se prepare para ser tomado por um medo “agonizante”, “sufocante” em meio a crítica social.

Tudo isso é fruto de um roteiro político, inteligente, interessante e nada previsível, do próprio Jordan em parceria com Win Rosenfeld. Enredo que extrai positivamente as atuações de Yahya Abdul-Mateen II (Anthony McCoy) e Teyonah Parris (Brianna Cartwright). O texto é tão colaborativo que personagens secundário torna-se importantes e densos no desenrolar de “A Lenda de Candyman”, com destaque para William Burke, do astro Colman Domingo.

Todavia, o filme não é perfeito. Sentimos, em algumas cenas, uma passagem abrupta, nada harmônica, caracterizando, portanto, a saturação de informações num problema ainda maior. De quem seria a culpa? De nossa Diretora, DaCosta, ou da ilha de edição?

“A Lenda de Candyman”, da Metro-Goldwyn-Mayer e BRON Studios, funcionou e funcionou até mais do que o previsto. Os erros apresentados foram pelo excesso, pela ousadia de propor uma narrativa forte e crítica. Podemos, então considerar que tudo isso faz parte do processo visceral que é arte. O filme diagnostica uma sociedade doente, perversa e sim, racista.

Envoltos numa fotografia sombria, mas pertinente, de uma trilha sonora quase perfeita, “A Lenda de Candyman” entrega uma nova abordagem sobre os nossos conflitos sociais e internos. Vale a leitura e a reflexão!!!

 

Classificação

Além da produção de Jordan Peele e da direção de Nia DaCosta, o filme também conta com o roteiro desse primeiro em parceria com Win Rosenfeld. O longa da Universal Pictures, “A Lenda de Candyman” estreia amanhã (26) nos cinemas.

By Amauri Alves

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante (...) Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo