Criar uma boa história não é uma das tarefas mais fáceis, é necessário envolvimento, corpo de fundo, profundidade reflexiva, manutenção do discurso de mudança, ser fidedigno aos personagens apresentados, e por aí vai… E acertar tudo isso é uma verdadeira dádiva. Chloé Zhao – Vencedora do Oscar deste ano por Nomadland – tentou buscar em “Eternos” tais pontos, tentou dar a sua “cara” a nova produção cinematográfica da Marvel, no entanto, ela subestimou a sua própria “arte” e o arco maior que tal produção integra: O próprio MCU.

Para começo de conversa, Zhao tinha um trabalho quase impossível: Apresentar uma história importante para os planos de expansão cósmica – por vezes discutidas entre fãs e estúdio -, mas num momento que poderia soar como inoportuno: Afinal, se os Eternos já existiam, por que não fizeram nada para salvar a humanidade ante o titã louco Thanos (Meio Eterno, meio Deviante)? Pergunta essa, não bem resolvida.

Nos novos quadrinhos da Marvel Comics, os Eternos – Seres poderosos criados pelos Celestiais perderam a memória, e algo inusitado os fazem lembrar de quem os são, daí a inserção deles no mesmo universo dos Vingadores -. Já neste filme, Kevin Feige optou em deixar eles inseridos e distantes de tudo o que já assistimos, o que pode ter comprometido a leitura da produção e a conexão com o próprio MCU. Para planos futuros, esse buraco pode ressoar bem mais do que o desejado (O verdadeiro bode no meio da sala). Mas esta, é apenas uma pequena amostra das dificuldades em criar todo um universo compartilhado.

Somado a essa “louca” aposta, tínhamos uma proposta interessante: Dar a “Eternos” um regimento diferente da fórmula “batida” Marvel, que conseguimos enxergar bem nos dois primeiros atos. No entanto, o terceiro ato foi praticamente um “aborto narrativo”, regado a repetição de ideias, e escolhas claramente equivocadas, tornando, portanto, “Eternos” num grande “flop megalomaníaco”. Nitidamente, as mãos de Zhao – mesmo com erros – foram vistas na maior parte da produção, e quando precisou de apoio ao material original, a diretora parece que lá não esteve, e quando isso ocorreu, os erros se acentuaram.

Outro desgaste esperado para “Eternos”, que cumpriu-se integralmente, era apresentar de maneira harmônica os muitos personagens em tela. Vimos ao menos 10 na trama, que para alguns houve uma maior contemplação de informações e conexão, e para outros, um esvaziamento textual sistemático. E diante disso, destaca-se Ma Dong-seok (Gilgamesh); Kumail Nanjiani (Kingo) e Angelina Jolie (Thena). Quanto à Gemma Chan (Sersi), seu personagem foi interessante até o segundo ato, e mesmo assumindo o posto de liderança do grupo de heróis do meio para frente, o roteiro não a ajudou a transpor o espaço de poder. Ou seja, ela praticamente foi boicotada. Surfando na mesma onda, esteve Richard Madden, com o dual Ikaris – que minutos antes do fim, muda completamente a visão de mundo (essa, não da pra engolir).

Em contrapartida, “Eternos” é um verdadeiro “blockbuster contemporâneo”, fazendo valer a bagatela dos quase US $ 200 milhões empregados e bem distribuídos em efeitos visuais, som e suas devidas particularidades técnicas, figurino, e claro, sob a égide de uma fotografia deslumbrante, passível a indicações em premiações importantes. “Eternos” é um verdadeiro espetáculo a parte, no campo do entretenimento, assim como “Duna” foi para Warner Bros.

Associado ao discurso naturalmente inclusivo, como prometido – o que representa um futuro melhor e distante das velhas e ultrapassadas perspectivas de mundo – o filme acaba validando o discurso entusiasta de Pantera Negra, em 2018. Seja na percepção dos limitados fisicamente, de personagens portadores de doenças crônicas e degenerativas, as nossas diferenças raciais e gênero. Observando o todo, nesse aspecto, “Eternos” teve um discurso profundamente humano. Mas, viver só disso, não basta. Outros elementos cognitivos, técnicos devem perfazer a trama, principalmente quando o roteiro foge a regra.

Visualmente fascinante, épico até, mas “perdido” dentro de sua própria premissa, de sua própria essência, dentro do MCU, “Eternos” da Marvel apresentou-se eivado de problemas estruturais críticos. Zhao tentou impor o seu ritmo, sua perspectiva, mas claramente a produção ganhou feições não compatíveis com o ideal. Além disso, é importante compreender que a Marvel está buscando o diferente em nova fase, e isso é legal – errar faz parte do jogo -, mas é necessário que tenha certeza do que quer e ouse, e não se contenha quando se espera mais.

 

Classificação:

Veja também:

O filme da Marvel Entertainment, “Eternos” chegará na quinta-feira (04) aos cinemas nacionais.

By Amauri Alves

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante (...) Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo