A Chegada (com spoilers) | Resenha

“Eu pensava que este era o começo da sua história. Mas agora eu não sei se acredito em começos e finais. Existem dias que definem sua história além da sua vida. Como o dia que eles chegaram.” – Drª Louise Banks

Lançado em 2016, o filme A chegada, nos entrega um excelente drama incrustado em uma ficção científica. Baseado em um conto chamado: “A história da Sua Vida”, de Ted Chiang, o longa recebera oito indicações ao Oscar de 2017, sagrando-se vitorioso na categoria melhor edição de som.

O filme é filho do Diretor canadense Denis Villeneuve (de Homem-duplicado e Os Suspeitos) conhecido por seus suspenses psicológicos, agora ele adentra na ficção, sem perder o tom de abordar as camadas mais profundas de seus personagens. Diferentemente de muitos filmes de ficção científica, nos quais o cerne roda em torno dos efeitos especiais e cenas de ação, o filme de Villeneuve nos remete aos clássicos da literatura ficcional, ao focar sua história nos questionamentos humanos que promovem o avanço científico. Se liga na prévia do filme:

Se você ainda não assistiu, e não tem interesse em comprometer sua experiência, esteja avisado que a resenha em loco está repleta de Spoilers, visto tratar-se de um filme com 3 e ½ anos, e de que exploraremos mais amiúde algumas nuances bem peculiares do longa. Portanto estejam avisados e continue por sua própria conta e risco.

O enredo nos situa na atualidade, quando 12 (doze) naves alienígenas, surgem pairando sob a Terra, distribuídas por diversos pontos (países) do planeta. A priori não hostis, porém a humanidade, temerosa da chegada dos visitantes espaciais, e com o intuito de estabelecer uma comunicação com os seres interplanetários e descobrir quais suas reais intenções; solicitam o apoio de uma renomada especialista em lingüística, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), bem como a do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), que juntos, passam a realizar uma série de experimentos a fim de interpretar a peculiar linguagem dos Heptapodes – nomenclatura dada aos alienígenas – (porquanto disporem de 07 tentáculos), com o objetivo de ajudar no diálogo com as criaturas.

O roteiro ficou a cargo de Erick Heisserer, que a propósito, acertou em cheio ao mesclar a história pessoal da personagem com um enredo intrigante. Dessa forma vemos o drama pessoal da protagonista fundir-se com a possibilidade da extinção da vida na Terra; e é nesse contexto que nos são apresentados recursos como loop temporal, tempo cíclico, viagens no tempo e experiências linguísticas.

De início é difícil compreender o laço estabelecido por Louise com os ET’s, o que deixa a compreensão da trama um pouco confusa para quem acompanha; paralelo a isso a tensão entre as grandes potências mundiais só aumenta, o que é bem palpável, chegando às margens de um conflito de larga escala entre os extraterrestres e os humanos. A tarefa começa a ficar ainda mais complicada para os cientistas, quando Louise passa a emergir em flashbacks sobre sua vida, sobretudo acerca de sua filha; e é neste ponto que a história começa a ficar deveras interessante. Pois, quanto mais ela descobre acerca de sua vida, essas descobertas afetam não somente ela, mas toda a humanidade.

A Chegada/Sony – Reprodução

A estrutura do roteiro é fenomenal, ela mexe com nossos sentidos e a percepção que temos do tempo e do que nos é relatado. A priori, somos levados a crer trata-se os flashbacks, do passado de Louise, haja visto que as cenas com sua filha e seu dilema, nos remete a um possível trauma vivido. No entanto a coisa muda completamente de figura quando no último ato do longa, nos surpreendemos ao nos darmos conta de que tratara-se do futuro de Louise. Tal plot twist nos leva a reavaliar tudo que pré-conceituamos acerca do longa até o momento e nos leva ao verdadeiro ápice da história.

Já ouviu a respeito do PARADOXO DE BOOTSTRAP?

Ele afirma que quando algo ou uma informação viaja no tempo, não dá pra se afirmar ao certo qual o ponto de sua origem. Isto é: há um loop criado entre momentos no tempo, como se a volta de um item ou informação ao passado, desse origem a ele mesmo. Resumindo: o Paradoxo prevê que um loop temporal é criado para acesso a um futuro, futuro este criado por ele, e que por sua vez, criará o próprio evento. O Futuro já conta com o que vai acontecer.

A partir desse ponto, no entanto, por mais confuso e improvável que o enredo possa parecer, ele começa a ser interligado, estruturado como um quebra-cabeças não linear, caminhando para um “final redondo”.

O roteiro trabalha em cima da hipótese Sapir-Whorf, que trata-se de uma teoria linguística que reza que a linguagem de uma determinada sociedade é o que  determina o modo como ela enxerga e compreende sua própria realidade.

A humanidade enxerga a realidade de forma linear, basicamente causal, porque nossa linguagem se estrutura desta forma. Já, os alienígenas, tem uma perspectiva cíclica de tempo na qual o passado o presente e o futuro acontecem simultaneamente, como uma percepção de vida de modo completo. Sem começos ou fins. Por isso os símbolos se apresentavam de formas circulares, mas que na realidade não eram suas palavras, mas sim as representações de seus próprios pensamentos.

É também sugestionado no filme que tal linguagem baseou-se na Palindromia, o que daria sentido de qualquer ponto que se iniciasse o entendimento, tal qual o nome da filha de Louise, Hannah e bem como o roteiro, que poderia muito bem começar com as cenas finais ou finalizar com o início.

Por isso, quando ela passa a compreender a linguagem circular da espécie, e como a estrutura da linguagem determina a forma de ver o mundo, ela passa a enxergar a realidade da mesma maneira dos Aliens, de forma completa, pois neste momento tudo passa a ser Uno (passado/presente/futuro). O que nos sugere que todo aquele que se dispusesse a aprender a linguagem alienígena, passaria a ver de uma nova forma a vida e suas implicações, fazendo a humanidade evoluir, passando a ter a capacidade denotada por Louise, a de acessar memórias passadas e futuras em seu presente. Como se pudesse senti-las, percebê-las como uma experiência vivida.

Isso explica, por exemplo, o breve aprendizado de Louise, pois como no futuro se dá a publicação do livro que ela escreve traduzindo o idioma, ela então sempre o compreendeu, compreendendo a totalidade dos fatores. Tanto que quando ao final, ela se encontra com o General Shang, este lhe fornece seu número pessoal e lhe diz a última frase de sua falecida esposa, o que a princípio é encarado com estranheza pela doutora, mas que logo compreendemos se tratar do loop do paradoxo de bootstrap. Afinal, a medida em que ela ouvia o que ele lhe informara, ela falava para ele mesmo, na chamada realizada no presente (passado, daquele momento futuro); garantindo a ligação entre esses momentos e sua existência.

Tomamos ciência então de que o surgimento repentino dos visitantes, tinha por fim unir as nações terrestres, afinal eles não desejavam conflito, não tinham a intenção de invadir ou colonizar o planeta, subjugar a raça humana ou extrair seus recursos minerais. Como seres sencientes, tinham por objetivo na realidade forjar um aliança de auxílio mútuo entre as espécies; fornecendo em um primeiro momento uma ferramenta que ajudaria a humanidade a avançar tendo assim, a capacidade deles de entender o tempo de forma peculiar, e assim poder ajudá-los em um futuro distante.

E apesar de saber que sua filha seria acometida por uma terrível doença terminal e que Ian as abandonaria quando tomasse conhecimento disso, ainda assim, Louise resolveu enveredar por esse caminho. Afinal, é essa a mensagem que resta-nos ao término do longa: que não importa o início ou o fim, mas sim a jornada. Viver é o objetivo.

OBS* A título de curiosidade: a frase dita pela falecida esposa do General Shang no leito de morte, foi: “Na guerra não existem vencedores, apenas viúvas.”

É sem dúvidas um filme com profundidade, bastante intenso e esplendidamente peculiar.

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