O que é original? É um bicho raro. Difícil de encontrar, de identificar. Especialmente, quando falamos em arte. Séculos de produção artística tornaram a missão de encontrar ideias e produções originais como algo muito difícil. São milênios de literatura, teatro, música, entre outras artes. Temos mais de um século de histórias em quadrinhos e cinema. Além de décadas de televisão. Mesmo assim, ainda é possível encontrar trabalhos originais. Podemos dizer que todos os anos, nascem obras originais, ainda que sofram influências de outras obras, em maior ou menor escala. Por outro lado, às vezes, até pensamos ter encontrado algo original e quando confrontamos, investigamos possíveis ligações e influências, esbarramos com referências anteriores e muda nosso entendimento.

Hoje, temos novos caminhos. Computadores interligados na rede das redes, a Internet. Hoje, os artistas têm meios de produção mais fáceis, meios de distribuição de alcance mais amplo e facilidade para encontrar seu público. De interagir com eles. Por outro lado, essa imensidão de possibilidades e facilidades, podem enclausurar nossas mensagens numa solitária garrafa, boiando no vasto oceano. A produção não para de crescer. De ter novos artistas, novas ideias ou velhas ideias recicladas, tornando ainda mais difícil alcançar algo original. Ainda mais raro.

Segundo dados da Unesco, são mais de dois milhões de livros publicados por ano, considerando publicações de 123 países. Mais de 60 mil músicas são lançadas, diariamente, apenas no Spotify. Quase uma nova por segundo. São 500 horas de novos vídeos, lançados por minuto, apenas no Youtube. Nos últimos dez anos, foram lançados mais de 600 novos filmes anuais, apenas na América do Norte, antes desse total cair, em decorrência da pandemia em 2020. Apontar obras originais é encontrar uma agulha no palheiro. A grande maioria dos trabalhos artísticos, em qualquer época, envolve plágio.

Lembrando que o sucesso é a medida de influência das idéias. Se uma obra faz sucesso, serve de referencial para obras futuras. Logo, outras obras vão copiar ideias anteriores de sucesso. Se muitas obras copiam a mesma ideia, nasce o clichê. Se um grande volume de obras copia a mesma ideia, ao longo do tempo, torna-se parte de um padrão ou convenção entre as exigências de um gênero ou subgênero.

Quando verificamos exemplos de referências na literatura, encontramos Eneida, de Virgílio, do Séc I a.C., inspirado na Odisseia de Homero, Sec VIII a.C. Por sinal, uma das primeiras continuações da literatura. Homero deu sequência a seu romance, A Ilíada e inspirou também Luis de Camões, de seu clássico Os Lusíadas (1572). JRR Tolkien pode ter se inspirado na peça de Richard Wagner, O Anel dos Nibelungos (1853) para escrever sua mega saga O Senhor dos Anéis (1954). Em exemplo mais recente, J.K. Rowling, famosa por sua saga iniciada com Harry Potter e a Pedra Filosofal (1997), pode ter se inspirado na saga em quadrinhos da DC Comics, Os Livros da Magia (1990), do mestre Neil Gailman. As semelhanças são impressionantes.

No teatro, uma peça trágica talvez seja a primeira trilogia da história. A Trilogia Tebana de Sófocles que tem início com Édipo Rei e segue com Antígona e Édipo em Colono, obras do Séc. V a.C. Foi a peça Antígona que inspirou o bardo inglês William Shakespeare com sua trágica história de amor, Romeu e Julieta (1597) que, por sua vez, inspirou inúmeras obras, em vários formatos. Enquanto Ariano Suassuna teve grande influência de Shakespeare para escrever sua hilária comédia Auto da Compadecida (1955), com muitos elementos de O Mercador de Veneza (1600), do bardo inglês.

Na música, Elvis Presley, conhecido como o Rei do Rock, teve muitas influências da música negra, como o blues, o soul e o rock, em suas canções, mas o exemplo mais gritante veio da ópera. O sucesso It’s Now or Never (1960) do roqueiro, teve a melodia copiada da canção, de estilo operístico, O Sole Mio, um clássico italiano de 1898. A música de Elvis influenciou muitos artistas brasileiros como Roberto Carlos, Rita Lee e Raul Seixas, como ocorreu também com os Beatles. A música Toda Quente, de Reginaldo Rossi, vem de Kiss me Quick, de Elvis Presley. Rauzito foi um plagiador profissional, tendo várias de suas canções famosas ou não, grandes plágios como Peixuxa que bebe de Ob-La-Di, Ob-La-Da dos Beatles e A Verdade Sobre a Nostalgia que se inspira em My Baby Left Me, popularizada por Elvis Presley.

Beatles serve de muita referência na música brasileira. Além de influenciar toda a música da Jovem Guarda, teve músicas como Quando Te Vi, do Beto Guedes, versão de Till There Was You; Lá Vem o Sol, de Lulu Santos, versão de Here Come the Sun; Então, é Natal, de Simone, versão de So This is Christmas, de sucessos do quarteto britânico. Exemplo mais recente foi a polêmica Juntos, de Paula Fernandes e Luan Santanta, versão de Shallow, de Lady Gaga e Bradley Cooper para o filme Nasce uma Estrela (2018), por sinal, é a quarta versão do filme nas telas.

Nos quadrinhos, há uma curiosa inspiração bíblica na origem do primeiro super herói de todos, o Superman. Um estrangeiro/alienígena que é mandado ainda bebê, pela família estrangeira (escravos judeus / kriptonianos), numa viagem de barco/foguete, para ser acolhido em outro mundo/povo, por uma família de egípcios/terráqueos. Superman é inspirado em Moisés. Seu destino é salvar a humanidade e tem os dons para isso. O que mais vemos nos quadrinhos de super heróis das grandes editoras é a reciclagem de ideias e as sagas de duração infinita. Tem também as versões femininas de personagens masculinos ou as versões jovens. Além de personagens similares nas editoras concorrentes. Aquaman/Namor, Flash/Mercúrio, Arqueiro Verde/Gavião Arqueiro, Liga da Justiça/Vingadores, etc, etc. Por sua vez, o Arqueiro Verde tem influência do lendário personagem histórico, Robin Hood. Enquanto, X-Men foi a resposta da Marvel para Patrulha Destino, da rival DC Comics.

O cinema é o reino das adaptações, refilmagens e continuações. Muitas delas são insuspeitas. O mesmo livro de Ian Fleming, Thunderball, inspirou três filmes do agente secreto James Bond. 007 contra a Chantagem Atômica (1965), 007 – Nunca Mais Outra Vez (1983) e 007 Contra Goldeneye (1995). O diretor japonês Akira Kurosawa teve sua obra, Os Sete Samurais (1954), adaptada para um faroeste de Hollywood, Sete Homens e um Destino (1960), por sua vez, refilmado em 2016. Kurosawa se inspirou em Rei Lear, de William Shakespeare, para seu drama, Ran (1985). A mesma obra do bardo inglês influenciou a série de TV japonesa Kimba, o Leão Branco (1965) que inspirou o clássico da Disney, O Rei Leão (1984), que por sua vez, ganhou nova versão em 2019.

Star Wars – Uma Nova Esperança (1977) bebe de muitas influências como o filme Metrópolis (1927), os quadrinhos de Flash Gordon (1934), os livros O Senhor dos Anéis (1954) e Duna (1965), mas a trama do filme de George Lucas é inspirada em Kurosawa, do filme A Fortaleza Escondida (1958). Depois, o filme Alien, o Oitavo Passageiro (1979), de Ridley Scott, foi inspirado pelo filme italiano, também de ficção científica, Planeta dos Vampiros (1965), do diretor Mário Bava. James Cameron nunca admitiu, mas o filme Exterminador do Futuro (1984) foi inspirado na saga dos quadrinhos, Dias de um Futuro Esquecido (1981), dos X-Men. Exterminador do Futuro 2 (1991) tirou ideias da série em quadrinhos Excalibur (1987) e seu mega sucesso Avatar (2009), bebeu da fonte da animação da Disney, Pocahontas (1995).

Na televisão, a série Perdidos no Espaço (1965) foi criada pelo lendário produtor Irwin Allen com ideias roubadas de Gene Roddenberry, responsável pela celebrada série Jornada nas Estrelas (1966) que, por sua vez, teve grande inspiração no filme Planeta Proibido (1957). A série de TV, Battlestar Galactica (1978) foi fruto do sucesso de George Lucas, nos cinemas, Star Wars – Uma Nova Esperança (1977). A série de TV, Jornada nas Estrelas – Deep Space Nine (1993) roubou ideias de J Michael Straczynski que refez seu projeto e criou a série Babylon 5 (1993), por sua vez, inspirado na saga do Rei Artur e nos livros de Senhor dos Anéis. A série Heroes (2006), bebeu dos quadrinhos de X-Men e Watchmen.

Até o Brasil, tem seus exemplos de referências na TV. Basta comparar os vários programas de Silvio Santos com os similares da TV norte americana. Os programas de entrevistas, os reality show e as novelas. Muitas delas. Entre as referências mais gritantes, a novela Avenida Brasil (2012), da Rede Globo, foi inspirada na série Revange (2011). A novela Os Caminhos do Coração (2007), da Rede Record, se inspirou na série Heroes. E a novela da mesma emissora Belaventura (2017) queria ser Game of Thrones (2011).

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Como diria o velho guerreiro Chacrinha, na televisão, nada se cria, tudo se copia. O apresentador deveria ter dito isso sobre as artes, em geral. Por sinal, sua famosa frase também é referencial. Foi adaptada de “Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, frase do pai da química, Antoine-Laurent de Lavoisier. Como podem perceber, o original nas artes é mais raro do que pensamos.