Alice in Borderland – 1º Temporada (2020) | Crítica

Pelo título, já somos avisados da conexão da série com o clássico literário Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis Carroll. Mas a nova série da Netflix, lançada esse mês e adaptada da série mangá japonês homônima, criação de Haro Aso, publicada nas revistas Shonen Sunday (2010-2016), constrói sua narrativa fundamentada em um caleidoscópio de referências, a começar pela sequência de abertura com elementos de outra série de sucesso, The Walking Dead, mas sem os zumbis. Enquanto a palavra Borderland pode ser traduzida como fronteira, pode também ser entendida como limite. Em ambos os casos, se enquadram com a nova série.

Vemos três personagens em destaque. Ryōhei Arisu (Kento Yamazaki) e seus dois amigos Karube (Keita Machida) e Chota (Yûki Morinaga). Eles vivem em Tokyo dos dias atuais. São jovens comuns, envoltos em problemas cotidianos. Arisu (se pronuncia Alice, em japonês) é pressionado pela família a conseguir emprego e se organizar na vida, como seu irmão. Mas ele insiste em seu vício por games. Karube é balconista num bar, enquanto Chota tem um emprego básico num escritório.

O grupo se encontra para tirar onda na cidade, mas eles chamam a atenção da polícia e precisam se esconder. Nesse momento, como um passe de mágica não explicado, eles permanecem na mesma Tokyo. Entretanto, a população desaparece, dando início ao grande mistério. É impressionante o efeito de enxergar ruas e prédios vazios, com veículos abandonados. O que remete a filmes como Matrix ou Eu Sou a Lenda e séries como The Walking Dead.

Após o período de estranhamento e descobertas, o grupo é direcionado a locais onde encontram outros poucos sobreviventes. Quem chega ao local de encontro é forçado a participar de uma série de desafios fatais, numa luta extrema para se manter vivo. Nada é devidamente explicado para os envolvidos. Eles precisam entender e vencer os desafios, enquanto enfrentam a situação. O preço é sempre a morte.

A narrativa assume uma clara estrutura de vídeo game, distribuindo estágios pelos episódios, sendo cada vez mais desafiadores e perigosos. Mas não espere ver grandes momentos de interpretação. Os atores entregam o básico e os diálogos não ajudam. A força dramática nasce das situações limites enfrentadas pelos personagens, as reviravoltas inesperadas e os flashbacks bem colocados para fundamentar alguns deles, bem ao estilo da série Lost.

Os estágios são marcados por cartas de baralho que representam o tipo de desafio e o nível de dificuldade, numa estratégia bem elaborada e mais uma clara referência ao clássico de Alice. Além desse detalhe, a trama leva a um importante personagem conhecido como Chapeleiro. Ainda que os sobreviventes, em dado momento, encontrem um porto seguro que seduz ao promover um estilo de vida hedonista, é questão de tempo até chamarem atenção e o grupo enfrentar mais um desafio que pode ter um resultado trágico.

A série conquista os espectadores numa evolução crescente, com situações cada vez mais insólitas e inventivas. Num dos pontos altos da série, uma sequência de flashbacks sugere retratar o passado de um dos personagens apresentado na trama, quando, na verdade, se trata de outro personagem inesperado e a revelação dessa verdade é crucial para entender o momento chave da trama.

O último episódio leva numa direção ainda mais radical e inesperada, sugerindo que todo o contexto apresentado até ali trata-se apenas de uma camada inferior e que o mistério assume novos contornos, deixando em aberto para a próxima temporada, seguindo ainda a cartilha definida por Lost. Não importa que a série dure diversas temporadas, contanto que mantenha a qualidade, a criatividade apresentada e nos leve a um final satisfatório que faça sentido com tudo o que foi construído na narrativa. Pelo jeito, vamos enfrentar muitos desafios nesta fronteira, até o limite dos próprios personagens. Qual a próxima carta?

Classificação:

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A primeira temporada de Alice in Borderland pode ser encontrado na Netflix.

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