Cherry – Inocência Perdida (2021) | Crítica

Em uma de suas mais controversas e influentes críticas, Pauline Kael destroça Shane (Os Brutos Também Amam) defendendo que ele não é um legítimo western por ser todo meticuloso e bem trabalhado. Assistindo Cherry veio muito essa crítica e todos os argumentos de Kael quando vi o novo filme dos Irmão Russos com Tom Holland que atira para vários gêneros, mas ao mesmo tempo parece não acertar muito na síntese deles. Confira prévia:

Dividido em partes, começamos com um básico boy meet girl. As escolhas aqui da direção são curiosas por emular vários filmes e por abraçar uma estética onírica. A narrativa nessa parte introdutória não é muito complexa, mas se torna bastante cansativa por causa de uma narração em off que se acha esperta ao ficar constantemente explicando cenas em vez de mostra-las.

O romance dá lugar para um filme de guerra que segue os mesmos moldes de Nascido Para Matar do Kubrick e da escola de militares vamos para o campo de batalha. O campo de batalha cheia a morte, mas ao mesmo tempo a direção parece ter medo de se aprofundar nisso e é perceptível esse receio quando o pavor da guerra não convence como deveria convencer.

Mas o filme tenta entregar na terceira parte. As duas primeiras é uma longa e chata introdução para o filme ser sobre drogas. Vemos a degradação moral do casal protagonista em busca de mais uma dose. O que poderia ser um bom retrato das drogas no cinema se torna na verdade um comercial de cosméticos quando as drogas não parecem ter efeito visual e físico nos drogados. A pele brilhante, o cabelo que está embaraçado, mas com um brilho impecável e o corpo que continua malhado e atlético.

Voltamos para a crítica da Pauline Kael e questionamentos sobre o que é um filme verdadeiro sobre drogas. Tivemos muitos títulos referências no assunto e quando um filme parece ter medo e acha que só mostrar personagens vomitando sem um real impacto visual é melhor nem adentrar nesse campo. O famoso ou tudo ou nada cinematográfico.

Essa falta de tato nessas cenas – incluindo um Tom Holland que não convence em nenhum momento nem como drogado nem como homem velho maduro com um bigode para simbolizar sua alta idade no final do filme – faz com que o telespectador saia da imersão e fique se questionando sobre a realidade de tudo aquilo em tela.

Cherry é um bom exemplo de filme bem-intencionado que se perde nos detalhes. E todos sabemos que mais nocivo que as drogas na nossa pele e no nosso corpo são os detalhes deixados de lado nos filmes. E o diabo mora nos detalhes.

Classificação: 

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O filme pode ser visto no serviço de streaming da maçã, a Apple Tv+.

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