Expresso do Amanhã – 2º Temporada (2021) | Crítica

Um dos meus grandes questionamentos para o novo ano de Expresso do Amanhã, da TNT Series – e distribuída em nosso país pela Netflix – era se a trama do Snowpiercer teria fôlego para a nova temporada. E para a nossa surpresa, o programa de Josh Friedman (Dália Negra, Guerra dos Mundos) e Bong Joon-ho (Parasita) apostou nos seres humanos, deixando o apocalipse gelado de “pano de fundo”. E como isso se deu? Através da chegada de um novo componente à história, o Sr. Wilford (Sean Bean), tornando o programa mais sólido, narrativamente complexo e caótico, na medida certa. Confira prévia:

Sobreviver é um desafio! Principalmente quando o mundo apenas se resume a gelo e um punhado de pessoas confinadas. Os ânimos estão a flor da pele, bastando uma pequena fagulha e tudo pode desmoronar. Na primeira temporada, foi construída ao longa de 10 capítulos a ascensão dos fundistas – grupo marginalizado presente no Snowpiercer – através de Andre Layton (Daveed Diggs) ante aos abastados. Naquele momento, o futuro do trem despojava de um certo tom democrático, e de esperança até. Mas no último capítulo, o dono da ideia, o Sr. Wilford foi apresentado. E como esperado, desejava o controle e o Snowpiercer.

E aqui, recai uma verdadeira reflexão sobre a existência humana, e seus pensamentos compulsoriamente teocráticos. Tratado como um “deus”, Wilford foi recebido com muita esperança e devoção. E as lutas pela igualdade social, pela humanidade foram paulatinamente deixadas de lados. De “Deus”, Wilford de nada tinha. A sua arrogância, busca pelo poder sobre o poder, mesclada ao sentimento de autoafirmação traçavam um perfil perigoso, psicótico e quase suicida em que a homens desejavam. Algo não muito diferente dos déspotas que insistem em governar países ausentes de luz. E a produção de Expresso do Amanhã soube aproveitar essa pegada, alinhando aos vários conceitos minimalistas e assertivos do mundo contemporâneo, o caos entre o que é certo e justo, e os devaneios de um louco no poder.

Utilizando o “Big Alice” – trem de apoio – Wilford e grupo acoplaram no Snowpiercer e a trama ganhou novos contornos. Episódio por episódio, o personagem de Bean traçava planos para num futuro próximo assumir o controle dos trens – algo que pode ser visto num belo jogo de xadrez e assim foi construído, sob uma narrativa forte e intensa. E o ator veterano soube eficazmente se achar no papel.

Durante o caminho vimos o crescimento de personagens esquecidos ou pouco explorados, com destaque para a secretária Ruth Wardell (Alison Wright) e a filha de Melanie Cavill (Jennifer Connelly), Alexia (Rowan Blachard) recém-apresentada. Também vimos escolhas criativas nada esperadas, mas cirúrgicas, eficientes, e esquecer nesse momento das tramas amorosas foi outro ponto positivo, focando, quase que exclusivamente no enredo estratégico e politico da adpatação. Foi interessante essa tomada de direção? Sim! Pois, tornou o Expresso do Amanhã ligeiramente envolvente e poeticamente caótico. 

Ainda sobre a estória, tentando se desfazer das amarras do Big Alice, Melanie descobriu algo inusitado lá fora, o planeta estava descongelando – o que representava esperança e futuro para os remanescentes humanos à bordo dos trens. E aqui, claramente Connelly ganhou destaque. A atriz mostrou toda a sua fibra e sua capacidade interativa em lidar com a dual Melanie – todavia, creio que gostaria de vê-la bem mais. O drástico “afastamento” da atriz, deixará o programa – talvez – um pouco mais pobre.

Na outra ponta, o personagem escolhido como herói na primeira e segunda temporadas, o ex-policial Andre foi apresentado como um ser “falho”, “perdido”, mas humano -. Será que isso foi proposital?! Sim. Afinal, a trama deixou bem claro que é possível acreditar na existência de um mundo melhor, mesmo quando temos demônios interiores para lidar.

Assumidamente, o programa da TNT Series manteve o padrão de qualidade. Com boa qualidade de fotografia, edição e montagem, a segunda temporada de Expresso do Amanhã foi tecnicamente interessante. Mas, é preciso validar que narrativamente, ela foi superior a anterior, mesmo tomando um caminho “diferente”, aprofundando dissertativamente as mazelas sociais existentes. Portanto, a série merece sim, um espaço em sua lista de programas à assistir, caro leitor. É impossível você ficar entediado, observando o destino da humanidade a bordo do Snowpiercer e seus 1034 vagões – Uma verdadeira alegoria dos atuais dias.

Classificação:

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A primeira e segunda temporada da série Expresso do Amanhã, programa inspirada nos quadrinhos franceses de Jacques Lob, Benjamin Legrand Jean-Marc Rochette, encontram-se na Netflix.

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