Lovecraft Country – 1º temporada (2020) | Crítica

Por estar passando por um momento delicado em sua política, é visível como a arte dos EUA está sendo bastante utilizada para expressar o que alguns grupos específicos estão sentindo e passando.

Recentemente tivemos a excelência que foi Watchmen e como Damon Lindelof conseguiu em uma minissérie resumir o que a população negra passou e ainda passa com a ascensão da extrema direita e a vista grossa que as instituições públicas fazem para grupos racistas herdeiros da KKK. Quando se tornou conhecimento geral que Lovecraft Country, livro do Matt Ruff, seria adaptado para a TV as expectativas se tornaram semelhantes ao que se era esperado de Watchmen: Mas será que a série da mesma HBO conseguiu cumprir tal expectativa? Confira prévia:

Todavia, os sentimentos sobre Lovecraft Country já eram diferentes, aliás a adaptação das HQ’s de Alan Moore propôs outros conceitos de arte pela própria arte. Em Lovecraft Country a tentativa de revisitar o texto na perspectiva de libertar sua escrita tão inspiradora para o horror mundial do seu racismo escrachado que se tornou debate, e o papel do público quando autores celebrados se mostram pessoas desprezíveis.

Eu como negro, e por ter crescido lendo Lovecraft (e consumido diversas outras coisas que foram inspiradas por ele) fiquei com muito pé atrás pela produção dessa série pois acreditava que era mais uma desculpa para apagar da história defeitos injustificáveis de brancos pelo fato deles serem poderosos ou fruto de algo prolífero.

Nos primeiros capítulos achei que a série iria ser o erro que eu tanto previa (e torcia) que ela seria. Tudo mudou já no terceiro capítulo quando as questões raciais que a série prometia não se tornaram algo tão explícito e bobo como nos dois primeiros e abraçaram um viés mais reflexivo e intrínseco. O racismo era gráfico ao mesmo tempo onipresente na tela. O gráfico na sua essência maravilhosa que é o choque e o onipresente para nos acompanhar constantemente.

O êxito, ao meu ver, vem nos capítulo 6 e 7 quando entendemos que os males do racismo é algo que transcende raças e persegue também minorias. Quando a série (no episódio 6) foge dos EUA para mostrar os conflitos raciais que os americanos causaram estando na guerra da Coreia é a preparação de terreno ideal para que o afro futurismo (no episódio 7) seja finalmente visitado pela produção para que seja compreendido que a questão racial transcende tempos e realidades.

Lovecraft Country/HBO Go/HBO/WarnerMedia – Reprodução

Lovecraft Country, antes de tudo, é uma série sobre diáspora. Os negros foram tirados do seu território e levados para uma terra que além de estranha para eles é estranha com eles. A magia que existe na série e persegue os personagens é o racismo que o país que os sequestrou e constantemente os distancia de seu passado ancestral para que o futuro seja aquilo que se espera que eles sejam e não o que eles desejam ser.

Misha Green entregou uma das coisas mais revigorantes que a TV e a cultura pop precisava e não sabia. Mesmo que eu ainda não consiga ter total aceitação com essa necessidade de revisão ao erro de grandes autores (principalmente algo tão deplorável como o racismo), é muito prazeroso encontrar séries feita por negros que conseguem ser tão universais quando na verdade só estão preocupadas em acertar o alvo com um tiro certeiro.

Classificação:

Veja também outras críticas nossas:

Com 10 bons episódios, a primeira temporada de Lovecraft Country encontra-se disponível na HBO e no streaming, HBO Go.

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