Lupin – 1ª Temporada/1ªparte (2021) | Crítica

Há um personagem francês nascido da literatura que se destaca pela sagacidade, esperteza, grande conhecimento, ousadia, carisma, classe e imprevisibilidade. Ele não é um espião. Não é um agente secreto. Poderia até ser. Mas é um ladrão. Dos mais sofisticados, dos mais refinados. Certamente, não é um ladrão qualquer. Ele esbanja carisma pra manipular as pessoas e promover seus golpes, enquanto as vítimas nem percebem como estão sendo enganadas ou que estão sendo roubadas pelo mestre em disfarces. Não estou falando da classe política. Trata-se do clássico personagem Arsène Lupin, o sofisticado ladrão criado pelo escritor francês Maurice Leblanc, no início do século XX. O primeiro romance, A Detenção de Arsène Lupin, é de 1905. As qualidades do popular personagem criado por Leblanc são a base da série francesa da Netflix, Lupin (2021), lançada nos primeiros dias do ano na plataforma, com grande sucesso.

Entretanto, engana-se que a série traga como protagonista, o icônico ladrão Arsène Lupin. A produção é uma releitura do material original e serve também de atualização aos fundamentos do clássico personagem, ao enfocar o jovem francês, Assane Diop, interpretado pelo ator Omar Sy (Intocáveis), descendente de uma família senegalesa que foi, ainda criança, induzido pelo pai a ler um dos romances de Maurice Leblanc, focado no famoso ladrão. A série assume que Lupin é uma ficção. Nesse período, o pai de Assane é acusado de um crime que não cometeu por uma família rica e poderosa. Assane cresce obcecado pelo clássico personagem literário, assumindo a postura e artimanhas de Lupin para investigar o incidente do passado e se vingar do que fizeram ao seu pai. Não há outra solução para Assane. Ele precisa ser um ladrão. Ele precisa ser Lupin.

A série, então, desfila uma sucessão de tramas mirabolantes e situações limites com aquele tom folhetinesco de grandes personagens clássicos, como o próprio Lupin, muito comum nas tramas do detetive Sherlock Holmes e daqueles que vimos reinar nos cinemas como o intrépido Indiana Jones ou o super agente James Bond, ou ainda, o agente contra terrorismo, Jack Bauer. O protagonista entra naqueles becos sem saída em que o espectador não vê escapatória, entretanto, no último minuto, vem aquela solução inesperada e o genial ladrão ainda escapa com um sorriso estampado no rosto, marcando sua ironia e deboche contra a alta sociedade de quem é vítima e algoz. Para a série Lupin, só faltou ter aquele tema musical em fanfarra grandiloquente vibrando junto ao público, no momento quase mágico daquela escapatória surpreendente.

Lupin – Netflix – Reprodução

É crucial que o protagonista da nova série traga credibilidade e dimensões dramáticas a esse personagem duplamente complexo, além de atualizar o carisma aristocrático com as motivações anarquistas do original, para os dias de hoje. Temos um personagem dentro de outro. O jovem Assane Diop assume o papel de Arsène Lupin e adota suas características, estratégias e qualidades. É possível enxergar a ambos na perfeita atuação de Omar Sy. O sucesso do drama francês Intocáveis (2011) já atestou ao mundo, o talento do ator e seu imenso carisma que o credenciaram a assumir a responsabilidade e o manto de Lupin. A atuação de Sy, associada a inventividade do personagem, consegue ofuscar a todos ao redor, além de resgatar toda a genialidade do icônico ladrão.

Sy assume um ponto elevado entre os trambiqueiros glamorosos e sedutores que vimos nos cinemas e na TV, em obras como Os Safados (1988), Onze Homens e um Segredo (2001) ou Truque de Mestre (2013). O diretor francês de vários episódios da série, Louis Leterrier, também diretor de Truque de Mestre, mostra toda sua habilidade para personagens icônicos, sequências de ação e suspense que aprendeu em filmes como Carga Explosiva (2002), Cão de Briga (2005) e O Incrível Hulk (2008).

Lupin – Netflix – Reprodução

O Arsène Lupin literário rendeu diversos romances escritos por Maurice Leblanc, ao longo de sua vida. Foram 38 contos, 15 romances e mais cinco peças de teatro. Com o passar do tempo, Lupin tornou-se um icônico personagem francês. Tão importante quanto Asterix ou Inspetor Clouseau, a ponto dos fãs fazerem turismo na cidade francesa de Étretat, na costa da Normandia, em homenagem ao personagem, onde se passa a maioria dos romances de Leblanc. Na verdade, Lupin foi uma resposta de Leblanc ao sucesso do britânico Sir Arthur Conan Doyle, com outro personagem icônico, o famoso detetive Sherlock Holmes. Os talentos dos personagens os levam a caminhos antagônicos. Por Lupin ser um ladrão e Holmes, um detetive. Leblanc atentou para isso e lançou em suas tramas, o arqui-inimigo, o detetive Herlock Sholmes. Mas não foi possível para o escritor adotar o nome original, por exigência do próprio Conan Doyle.

Lupin continua em evidência por suas sucessivas adaptações como filmes, quadrinhos, séries e animações, mangás e animes japoneses e produções de diversos países, de grande popularidade. Com destaque para a adaptação de Hollywood, Arsène Lupin (1932), com roteiro do próprio autor, Leblanc, o clássico do suspense de Alfred Hitchcock, Ladrão de Casaca (1955), inspirado em Lupin, o anime clássico O Castelo de Cagliostro (1979), de Hayao Miyazaki, baseado na série de mangá japonesa dos anos 60, criada por Monkey Punch, focada em Lupin III, neto do clássico personagem. Uma animação japonesa recente, Lupin III: O Primeiro (2019), super produção de grande sucesso de bilheteria e crítica que retoma a trama da mesma série dos anos 60. Por fim, Arsène Lupin serviu de inspiração para outros ladrões populares como a protagonista Camen Sandiego, a famosa ladra de uma série de games que gerou uma série em animação.

É fácil para o público se identificar e torcer pelo novo Lupin. Existe uma causa nobre por trás de suas ações questionáveis. Os episódios se destacam por momentos criativos e ousados, como a incrível sequência de roubo no Museu do Louvre, o encontro revelador no parque, a trama da prisão e o programa de entrevistas na TV. A sequência de suspense no trem não deve em nada aos melhores filmes de James Bond. A série ainda reverencia o personagem clássico no momento de descontração em família, justamente na cidade de Étretat, outro momento crucial da série que desenvolve um impactante gancho de meio de temporada. De fato, a Netflix só lançou metade da temporada e deve dar continuidade a série, nos próximos meses. Talvez, no segundo semestre.

Lupin – Netflix – Reprodução

A nobreza do novo Lupin e sua busca por justiça o aproximam de outro personagem icônico, Robin Hood, que rouba dos ricos para dar aos pobres. Com isso, a série assume uma leitura crítica contra a corrupção, o preconceito, a xenofobia e os abusos da classe aristocrática, o que eleva seu nível de carisma junto ao espectador. O alto nível de produção e roteiro, os elementos dramáticos que fundamentam a ação dos personagens, os reveladores flashbacks que trazem mais camadas a trama principal e ao protagonista, o elenco comprometido trazer credibilidade e intensidade, em meio ao tom divertido da trama, fazem de Lupin, uma série imperdível e aumentam a ansiedade para continuar após o lançamento futuro da segunda parte da temporada, torcendo pela próxima reviravolta. Cinco patas, fácil.

Classificação: 

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A primeira parte do programa encontra-se no catálogo da Netflix.

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