Parasita: Saiba porque o filme Sul-Coreano reescreve a história do Oscar e do cinema | Artigo

O cineasta da Coreia do Sul, Bong Joon-Ho, sacudiu Hollywood, ao ser celebrado na cerimônia de entrega do prêmio máximo do cinema, o Oscar, no último domingo, dia 09/02. Surpreendeu a todos da plateia, da audiência e dos cinéfilos no mundo inteiro. Rasgou os livros da história da sétima arte. Quebrou paradigmas. Rompeu barreiras. Ninguém esperava o resultado alcançado. Nem mesmo, ele. Todos os prognósticos derraparam e deram com a cara na parede. Queimou a língua dos especialistas.

O cineasta chegou de mansinho. Como quem não quer, querendo. Correndo pelas beiradas. Assim como os protagonistas de sua obra-prima, o filme Parasita (Gisaengchung , 2019). Como representante de uma classe social desfavorecida. Para ele, um estrangeiro. Distante de Hollywood, fez um filme desafiador. Sem os grandes recursos de um poderoso estúdio de cinema. Sem os grandes efeitos especiais, de recursos tecnológicos avançados, quase ilimitados. Sem ostensivas campanhas de marketing. Sem lançamentos em larga escala mundial de incontáveis salas de cinema. Apenas um trabalho de roteiro, direção e interpretação de seu brilhante elenco, embalados pela fotografia marcante e a montagem esperta.

Apresentou algumas credenciais. Os curtas metragens do currículo. Entre seus longas, a comédia de humor negro, Cão Que Ladra Não Morde (2000), o suspense baseado em fatos verídicos, Memórias de um Assassino (2003), o terror, destacado pela crítica, O Hospedeiro (2006), o drama de suspense, Mother – A Busca Pela Verdade (2009), que chamou a atenção no Festival Internacional de Cannes. Suas obras produzidas na Coreia do Sul que mostraram ao mundo o artesão que transita com propriedade por diversos gêneros. Somente outra obra da Coreia do Sul teve tanto impacto. Oldboy (2003), de Park Chan-Wook, vencedor da Palma de Ouro, no Festival de Cannes daquele ano.

Bong Joon-Ho conseguiu participar da festa dos ricos. O cineasta sul coreano chamou a atenção no Sundance Film Festival, convidado a participar do juri em 2011. Convocado em Hollywood, dirigiu a ficção científica pós apocalíptica, Expresso do Amanhã (2013), adaptada da graphic novel francesa “Le Transperceneige”, de Jean-Marc Rochette e Jacques Loeb, depois, transformada em série de TV. Lançou as sementes de sua leitura crítica contra as desigualdades sociais e contra o aquecimento global. Sua obra seguinte, a aventura ecológica, Okja (2017), ataca ferrenhamente a indústria alimentícia e defende o direito dos animais. O filme tornou-se o pivô do debate entre serviços de streaming versus estúdios e salas de cinema. Produzido pelo Netflix, o filme motivou a mudança das regras do Festival de Cannes que, agora, seleciona apenas os filmes comprometidos a serem exibidos nas salas de cinema franceses para competir no prestigiado Festival.

O materialismo dialético, observado por Karl Marx como um contínuo conflito social pela oposição das classes menos favorecidas e das classes abastadas, fundamentaram grandes obras no cinema, como Germinal (1993), Titanic (1997) ou Assassinato em Gosford Park (2001), bem como na série de TV britânica, Downton Abbey (2010-2015). O cineasta Bong Joon-ho contribuiu para esse debate com uma nova visão impactante, com o filme Parasita. Em que uma família vive na extrema pobreza até começar a agir, de maneira parasitária, para integrar a realidade de uma família que vive no topo da sociedade. No auge de seu sucesso. O grande painel pintado por Joon-Ho expõe não apenas as diferenças sociais e materiais. Demonstra a oposição das relações familiares. Enquanto os mais pobres são integrados, trabalham unidos, de forma orgânica, complementar e dialogam entre si com abertura, confiança e intimidade, os mais ricos sobrevivem sob máscaras, distanciamento, isolamento, medo e falsidade.

Foi com Parasita que o diretor viu as portas se abrirem de vez para a alta sociedade do cinema. Uma festa atrás da outra. Conquistou a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Melhor Roteiro e Melhor Filme Estrangeiro no Globo de Ouro. Melhor Filme Estrangeiro no BAFTA, o prêmio maior do cinema britânico. E tantos outros prêmios. O reconhecimento de uma obra magistral. O trabalho maduro de um diretor que sabe utilizar as técnicas e recursos narrativos. Transitar entre os gêneros de forma orgânica e funcional.

O resultado na Academia de Artes e Ciências de Hollywood não poderia ser diferente. O filme recebeu 6 indicações ao Oscar, sendo o primeiro filme da Coreia do Sul a ser indicado pela Academia. E não ficou restrito ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, do qual já chegou como favorito. Foi indicado também a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Desenho de Produção, Melhor Edição. A noite das premiações foi surpreendente. Quase um Escândalo. Parecia saído de um conto de fadas. Como se dissessem, Era uma Vez em Hollywood. As Adoráveis Mulheres ficaram no Século XIX, o Ford e o Ferrari correram, mas comeram poeira, Martin Scorsese cochilou e viu seu Irlandês perder o visto, sem nenhum prêmio, A História de um Casamento foi resolvido pela advogada Laura Dern, Jojo Rabbit entrou em conflito com seu amigo imaginário, os soldados de 1917 receberam a mensagem, mas o diretor Sam Mendes ficou pela trincheira, os Dois Papas ficaram no Vaticano. Pelo menos, Judy encontrou o seu caminho Muito Além do Arco Iris e o Coringa riu por último. Mas a noite foi de um único grande vencedor, Parasita.

O final da saga do diretor se assemelha ao final do filme. Surpreendente, inusitado, catártico. Ele fez história no Oscar, como o primeiro filme de língua estrangeira a conquistar o prêmio de Melhor Filme. Mesmo tendo conquistado Melhor Filme Estrangeiro. Outros filmes chegaram perto no passado, sem conquistar essa proeza. A vitória dos prêmios de Melhor Edição e Melhor Roteiro já era motivo suficiente de celebração para o diretor Bong Joon-Ho que confessou: “Vou encher a cara até o amanhecer”. Não importa a ressaca. Tudo agora é festa. A emissora de TV Paga, HBO, já anunciou uma série baseada no filme. Um reconhecimento de sua força, seu impacto. Parasita veio de mansinho e alcançou o topo. Uma vitória merecida. Que venha o próximo filme de Bong Joon-Ho. A Sétima Arte agradece.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *