Polêmica – O cinema pode desaparecer? | Editorial

Era outubro de 1969, quando foi encaminhada a primeira mensagem por e-mail, de um computador da Universidade da Califórnia para o Instituto de Pesquisas Stanford, a 500 km de distância. Os pesquisadores poderiam até entender como aquela tecnologia era promissora, mas jamais poderiam prever o impacto que a Internet provocou em nossas vidas, após 50 anos, em escala planetária.

Ao longo de décadas, a Internet foi um elemento decisivo para transformar mercados, enterrar tecnologias, mudar hábitos e impulsionar novidades. Os museus ganharam muitos componentes diferentes. Ainda não vemos um carro voador em cada esquina, mas é fácil perceber as transformações que afetam toda a sociedade. Taxistas disputam as ruas com motoristas de uma rede de aplicativos de celular. As redes sociais fariam o escritor George Orwell se arrepender de ter escrito o clássico 1984. As livrarias estão se juntando as lojas de disco e as videolocadoras na parede da memória afetiva. Os celulares abandonaram o papel coadjuvante de meros comunicadores sem fio para assumir um protagonismo como computadores de mão, com mais capacidade de processamento que os gigantescos computadores do Túnel do Tempo, da clássica série de TV, de Irwin Allen.

Sem falar no ano atípico de 2020 que entra como um divisor de águas na história humana devido a pandemia que parou o planeta e pressiona ainda mais para que a Internet avance em suas conquistas para cativar a população. Em meio a esse duelo que afeta gigantes multinacionais, observamos o cinema que não combina, em nada, com o distanciamento social. Em mais de um século, as salas de cinema transformaram a experiência de ver um filme, como um evento social, coletivo, imersivo e, ao mesmo tempo, uma experiência íntima, pessoal.

Várias ondas chegaram no passado como ameaça a hegemonia do cinema. O Rádio, a TV, o vídeo-cassete, as locadoras de filmes, a TV Paga, o DVD, a alta definição, o BluRay. Muitos chegaram e se foram como sombras de uma nuvem passageira. Mesmo assim, o cinema parecia ter pilares para se sustentar por mais séculos. Com grande capacidade de sobrevivência e renovação para se readequar e reconquistar seu lugar como um grande centro de entretenimento, uma indústria relevante para a sociedade.

Para enfrentar o rádio, o cinema aprendeu a falar. O cinemascope foi fundamental para o cinema sobreviver a popularização da TV. O cinema espetáculo foi crucial para não perder a relevância diante da TV Paga, do vídeo-cassete e das locadoras de filmes. Um grande vilão para o cinema surgiu com a Internet, através da pirataria e do compartilhamento dos filmes. O cinema respondeu com a reinvenção do 3D, quando James Cameron lançou Avatar (2009) e nesse conflito, a indústria e os estúdios contaram com um grande aliado. O streaming. Mas o jogo virou numa direção inesperada. As plataformas de streaming agora são a maior ameaça contra o cinema.

O poder nas mãos do espectador acessar uma biblioteca de produções audiovisuais, sejam filmes ou séries, ou documentários ou animações, escolher o que quer, no momento que deseja, sem as amarras de uma programação de salas e horários de sessões ou grade de programação de canais de TV é muito libertador. Um canto de sereia que transforma os hábitos dos espectadores no mundo inteiro. A ponto dos próprios estúdios e canais de TV decidirem estabelecer seus territórios entre as plataformas de streaming, num caminho sem volta. Se as produções audiovisuais estão garantidas pelo próximo século, o mesmo não pode ser dito das salas de cinema.

No caminho, tinha uma pandemia. Quem acompanha o mundo do entretenimento, sabe da gradual perda de força do cinema diante do streaming que avança pelas beiradas. Antes, a nova ferramenta para ver filmes foi o golpe de misericórdia contra as locadoras de vídeo. Os DVDs e BluRays foram extintos numa única tacada, seguindo o caminho dos CDs que também sucumbiram ao streaming de música. O novo fenômeno ainda ameaça a TV Aberta e TV Paga. Os outrora poderosos estúdios de cinema, sempre aliados das grandes redes de cinema, sempre atuaram juntos, em harmonia, em alinhamento. A pandemia colocou os estúdios e redes de cinema em lados opostos. Tudo em nome da sobrevivência.

A pandemia impõe o distanciamento social. Isso atinge diretamente a experiência coletiva de ir ao cinema, bem como ao teatro, espetáculos de música, eventos esportivos, etc, etc. Os estúdios gastam milhões para produzir e lançar cada filme nas telas. O tempo passa e os filmes não podem ser lançados nos cinemas. A pressão de retorno financeiro aumenta. Filmes são investimentos e precisam de retorno. Se não pode ser pelo cinema, se não pode ser pelo DVD ou Bluray, o lucro precisa vir de algum lugar ou os estúdios de cinema deixam de existir. Se não acredita veja o exemplo da 20th Century Fox. Não existe mais. Foi incorporada pela Disney que agora renomeia o selo como 20th Century Studios. A Metro Goldwin Mayer, o estúdio do leão, encontra-se a venda, mesmo capitaneando grandes franquias como 007, Stargate e Rocky/Creed. O novo dono pode ser uma plataforma de streaming.

Antes, os estúdios lucravam diversas vezes de cada filme. Os lançamentos divididos em janelas ocorriam em momentos diferentes. Lançamento no cinema. Pay-per-view. DVD. Bluray. Canais Prêmio da TV Paga. Canais da TV Paga. Canais da TV Aberta. Reprises. Um filme é lançado no streaming globalmente, numa única data e torna-se catálogo. Por outro lado, se um estúdio pode lucrar muito em março e perder dinheiro em abril, no streaming, essa receita vem de assinaturas mensais. Se o público aprovar o streaming, o estúdio lucra garantido em qualquer mês do ano. Então, as salas de cinema tornam-se intermediárias nessa relação, o que antes eram essenciais, primordiais.

Mais e mais, os estúdios pressionam as redes de cinema a aceitar o lançamento de filmes em janelas estreitas ou simultâneas em relação ao lançamento nas plataformas. Os donos dos cinemas xingam, rasgam cartazes, praguejam os estúdios, mas não conseguem mudar o rumo das coisas. A situação das redes de cinema tornaram-se mais sufocante em tempos de Covid-19. Só podem lançar um filme com menos horários diários, menos cadeiras disponíveis para garantir o distanciamento e menos público, desconfiado com o risco de serem contaminados. Os cinemas ainda acrescentam aos custos fixos, os gastos com higienização das salas. Ou seja, menos receita, mais custos. Como essa matemática fecha? Se um grande lançamento tinha o potencial de US$ 100 milhões de receita num fim de semana e cai para menos de US$ 1 milhão, como essa matemática fecha?

Por isso, os grandes lançamentos previstos para 2020 foram adiados para 2021 ou precisaram ser lançados no streaming. Mas a sobrevivência dos estúdios via streaming pode também levar a derrocada do cinema. Resta saber como será esse cenário após a vacina e o retorno em massa do público aos cinemas. No novo cenário, todos os grandes estúdios já terão seus serviços de streaming próprios e a percepção de que no streaming, o estúdio lucra sozinho. Nos cinemas, a receita é dividida pelo estúdio e as redes de cinema. Como essa matemática fecha?

Quando olhamos para frente. É possível perceber que os cinemas vão recuperar o fôlego após a pandemia, mas as coisas jamais serão como antes. A tendência de deterioração do cinema vai permanecer. Basta encarar as coisas do lado do consumidor. Uma família vai ao cinema. Gastos de transporte, lanches, estacionamento, ingressos para cada um e a família tem acesso ao filme. No streaming, basta pagar uma mensalidade que mesmo sendo cara, ainda vai ser menos da metade dos gastos de ir ao cinema. Como essa matemática fecha?

Sou entusiasta do cinema e espero poder usufruir da experiência de ver filmes em uma sala escura por muito tempo, mas há uma estrela da morte no horizonte do cinema que pode tirar totalmente a força das grandes redes, das salas de shopping, das salas alternativas e o cinema tornar-se uma experiência de nicho de público, assim como vemos o teatro ou o rádio, diante do que já foram antes. Não haverá tela IMAX que impeça essa tendência. Diante dessa perspectiva sombria, talvez tivesse mais sentido se aquela frase de Doc Brown ao encerrar De Volta para o Futuro fosse: “Para onde vamos, não precisamos mais de cinemas…”

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