Todas as questões cinematográficas que envolvem o horror muitas vezes estão presas em lógicas e mentalidades temporais e nos vemos sempre discutindo a funcionalidade das técnicas escolhidas para contar uma história assustadora. Quase sempre caindo nos clichês temáticos de cada era, é visível como cinemas específicos de seu tempo estão sempre andando numa linha tênue entre o anacrônico e a vanguarda artística.

A viagem temporal que ‘Rua do Medo’ faz é muito mais um exercício de linguagem que uma vontade de assustar em si. A revisita que a trilogia faz pelos tempos específicos do gênero até que apresenta bons momentos quando a narrativa simplesmente foca em emular os clichês e tentar fazer com que a audiência se transporte para momentos específicos.

Essa divisão em 3 partes para englobar 3 épocas (ou estilos) diferentes do horror americano – é essencial ter em cabeça que o cinema aqui é puramente americano e não sente nenhuma vergonha de abraçar isso – até faz um certo sentido estético quando estamos diante da maior onda nostálgica do audiovisual (curiosamente também musical) desde que o cinema dos anos 70 tentou emular os anos 50 na nova hollywood.

A parte 1666 merece um destaque maior do que as outras duas que desmembraram os anos 70 [surgimento do gênero slasher] até os anos 90 [quando o slasher atingiu seu auge e seu declínio]. Essa terceira parte está muito mais relacionada com um tipo de terror que ganhou força recentemente onde se tenta entender onde o gênero começou a ser gerado antes mesmo do cinema existir. É uma lógica que a Idade das Trevas carrega em seu cerne um horror elementar, presente em seus costumes e em suas tradições onde o mal é sempre explicado de forma da causa e efeito de quem segue ou não dogmas estabelecidos em sociedade – quase sempre pequenos grupos comunitários em um vilarejo preso em seu próprio microcosmo.

O loop temporal que a trilogia faz tem sentido nos dois primeiros filmes, mas quando ele nos transporta de volta para a primeira parte não tem um senso de continuidade e sim de fragmentação. E perdemos todo o lirismo vitoriano que a parte 1666 carrega para voltarmos para o niilismo cyberpunk que os anos 90 da parte 1995.

A parte 1666 tem destaque não só pela ótima temporalidade, também pelo o que a limitação narrativa que é encenar uma época “precária” artisticamente tem a oferecer aos realizadores. Os pecados que parte 1995 e 1978 carregam é exclusivamente pela necessidade excessiva de transportar o telespectador para a época da forma mais fácil que algo audiovisual pode fazer: tentar trazer para a trama dispositivos daquela época em questão esperando que se crie uma comparação imediata de qual era está sendo ambientada.

Quando Bowie e sua maravilhosa música Ziggy Stardust entram em cena para nos lembrar de onde vem o nome da nossa protagonista ou até mesmo uma pouco conhecida Ever Fallen In Love dos Buzzcocks embalam a trama não possuem a mesma força que poderiam ter se a direção estivesse desde os minutos iniciais colocando músicas dos anos 70 para que tenhamos certeza de qual ano estamos ali.

Falta cautela e uma direção mais focada em tentar emular respeitosamente as épocas que estão mexendo. Em 1995 até vemos um pouco de zelo de não preencher a trama com tantas referências aos anos 90, mas nos anos 70 chega a ser enjoativo como uma sobremesa excessivamente doce que compramos achando que vamos dar conta mas nas primeiras colheradas já percebemos em qual situação nos metemos.

Como saldo final acaba sendo positivo pelo que a trama propõe nessa revisita com tom de brincadeira pelo gênero em suas épocas áureas e também como as linguagens narrativas por mais que sejam distintas por questões temporais acabam sempre conversando entre si por estarem sempre em busca da mesma coisa que é o susto ou a tensão de quem assiste.

Só nos resta agora torcer para que coisas como essas não se tornem mais um objeto do buraco interestelar da nostalgia que anda consumindo tudo do audiovisual e não tenhamos mais uma leva de filmes que foquem nessa premissa de revisitar tempos de uma mesma coisa e acabam se tornando mais um aglomerado de referências que nada têm para dizer ao telespectador.

E que o gancho de continuação deixada no último minuto da última parte não se concretize.

Façamos um pacto para isso…

 

Classificação

A trilogia ‘Rua do Medo’, comandada por Leigh Janiak, encontra-se exclusivamente na Netflix.