Sobre Druk, Cassavetes e o Cinema para Homens | Artigo

Mesmo não sendo um exemplar definitivo do que conhecemos como buddy movies, Druk acaba servindo feito uma luva para esse tipo de cinema que se utiliza dos corpos e das relações (majoritariamente masculinas) para contar algo que se torna bem objetivo para quem busca esse tipo de conteúdo.

Druk – Vitrine Filmes – Reprodução

Todas as suposições de um cinema “másculo” acabam sempre no estereotipo do brucutu frio e calculista que mesmo com um plano de fundo romântico só consegue transpor sentimentos causando dor àqueles que merecem isso. Sem esquecer também da ironia que é tentar criar – mesmo que na teoria – uma espécie de subgênero para uma classe que além de dominante no mundo também é a maioria desde sempre na sétima arte.

John Cassavetes – Reprodução

Pauline Kael, além de uma das maiores críticas de cinema do mundo, talvez foi a maior detratora do cinema de John Cassavetes. Essa negação sempre foi vista pelas escolhas que o pai do cinema independente americano fazia em seus filmes. Mas agora, de uma ótica mais cética e com o benefício da perspectiva, essa indiferença que ela sentia ao cinema de Cassavetes se deva pelo fato que o cinema do nova-iorquino sempre ter sido da visão de um homem para homens e não de um homem para uma plateia plural. A maior obra dele, Uma Mulher Sob Influência, poderia ter sido um desserviço ao que poderia ser no tema que propõe. Está longe disso, mas a visão que temos da Mabel – por mais amorosa e respeitosa que seja – é de um espectro totalmente masculino. Mabel é esposa, mãe e amante. Todas as visões que temos dela é da perspectiva de um homem. Não que isso seja algo que anule toda a força, importância e excelência que a obra possui, mas é notável como esse filme é uma transição na carreira do diretor que conseguiu fazer com que sua visão masculina do mundo fosse, enfim, apreciada por todos.

Os Maridos – Reprodução

Os Maridos, filme anterior de Cassavetes, é o maior exemplo desse cinema de homens para homens que quero levantar aqui. Tudo nele é sob à ótica de um homem sobre homens e para homens. Mas a diferença do cinema brucutu que se tornou símbolo do cinema “de homem” é que, assim como todo o cinema de Cassavetes, a obra não é uma tentativa de glorificar e continuar no status quo e sim de mostrar a degradação que existe em todos os humanos e como isso é refletido em tudo e todos que os rodeiam.

Druk – Vitrine Filmes – Reprodução

A semelhança de Druk com o cinema de Cassavetes (bem mais especificamente com Os Maridos) é essa sinceridade de mostrar e como mostrar a degradação de um ser. As escolhas de Thomas Vithenberg fazem aqui não o torna um filme para homens, mas é com certeza mais fácil de se relacionar com a obra sendo um. Isso pode acabar afastando alguns. Essas escolhas não são tão corajosas como o filme de Cassavetes, mas a questão é que o filme dinamarquês está mais interessado numa visão intrínseca do que corrói a alma.

Thomas Vithenberg – Mads Mikkelsen – Reprodução

Tanto no que motiva o experimento alcoólico dos 4 amigos ao trágico desfecho de um deles não tem tantas consequências para além deles mesmos, e quando isso ocorre está mais para um começo de redenção/evolução do que qualquer outra coisa negativa.

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Se isso faz o filme dinamarquês melhor ou pior que o americano talvez tenhamos que voltar para a visão primitiva (mas nem um pouco anacrônica) do gosto pessoal. Não devemos sempre colocar quem somos na frente daquilo que consumimos em relação a arte, mas não podemos viver em constante negação de nossas vivências.

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