Star Trek: Discovery – 3ª Temporada (2020 – 21) | Crítica

Uma das mais recentes séries da longeva franquia Star Trek vive de recomeços, releituras e reinterpretações, seguindo a cartilha estabelecida por JJ Abrams que resultou no sucesso do reboot da tripulação clássica da Enterprise, nos cinemas, com o filme Star Trek (2009). Lembrando que a nova série produzida pela Paramount/CBS e lançada no Brasil pela Netflix, teve como um dos criadores, Alex Kurtzman, também produtor e roteirista do filme de 2009. Portanto, discípulo da mesma cartilha. Confira prévia:

A nova série trouxe para a TV, o mesmo gás incremental de ação, complexidade de roteiros, diversidade, sentido de urgência e alto nível de efeitos especiais em um patamar intergaláctico, além de ótimas interpretações do elenco que conquistou a velha guarda de fãs da franquia, como também um novo público mais jovem. O sucesso de Discovery abriu caminho para outras novas séries como Picard (Amazon), Lower Decks, ainda sem distribuição no Brasil, e futuros lançamentos como Seção 31, Estranhos Novos Mundos e Prodigy, um desenho animado voltado para o público infantil. Hoje em dia, são tantas as possibilidades que Star Trek alcançou um status onde nenhuma outra franquia jamais esteve. O mundo da Federação conquistou também um canal, na Pluto TV, com 24 horas de transmissão contínua, somente com Star Trek. Nem o criador Gene Roddenberry jamais poderia imaginar tamanho sucesso, nem nos seus roteiros mais inusitados. E isso é ótimo. Os fãs da franquia celebram.

Portanto, a responsabilidade de Star Trek: Discovery em manter e estender o legado da franquia é tão grande quanto a nova trilogia de filmes e a série The Mandalorian fazem por Star Wars. Os criadores definiram, desde o início da produção da nova série, que se passa anos antes do icônico James T Kirk assumir a cadeira de Capitão da Enterprise. As tramas das temporadas são organizadas em grandes arcos narrativos. A cada nova temporada, a série tem a chance de se reinventar e conquistar novos públicos. A audiência nem precisa acompanhar as temporadas anteriores para se situar na nova trama, se não quiser. Isso se torna um grande trunfo para não perder a relevância.

A terceira temporada de Discovery segue essa linha com a chegada da nave e seus tripulantes num distante futuro. Eles foram obrigados a fugir do século 23, do ambiente da série clássica, e saltaram para o século 32, no final da temporada anterior. Será que eles aceitam passageiros clandestinos? O futuro se mostra mais sombrio e incerto. Menos utópico. Em maior sintonia com os nossos tempos. Abre espaço na franquia Trek para abraçar de vez, elementos que despertam o interesse em Star Wars. Mais ação e conflitos tipo faroeste, lugares perigosos, perseguições, trocas de tiros de phasers, personagens de moral duvidosa e tipos foras da lei. Um universo mergulhado no caos. Cada um por si. A ordem sendo apenas um fiapo de esperança.

É nesse contexto que a protagonista, Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) surge sozinha e cai num planeta desolado. Ela se perdeu da nave Discovery por acidente. Precisa se virar, sobreviver, formar alianças, fugir e tentar entender o que aconteceu antes. Aos poucos, descobrimos que a Federação de Planetas Unidos é apenas uma sombra do que já foi. Despedaçada e abandonada desde a ocorrência de um desastre catastrófico conhecido apenas como A Queima. O incidente destruiu quase todas as naves, em escala galática, ao mesmo tempo, misteriosamente. O combustível usado pelas naves, o dilítio, entrou em colapso e levou bilhões de vidas com isso. De inúmeras raças interplanetárias, vários mundos abandonaram a Federação. Até o Planeta Terra.

O reencontro de Burnham com a nave Discovery ocorre depois de quase um ano de andanças. E alguns momentos marcantes. Num momento que remete a Battlestar Galactica (2004-2009), um sentinela mantêm seu posto mesmo sem ter certeza do que aconteceu com a Federação. Motivado apenas pela esperança de um dia resgatar os valores que servem de base para a entidade. Uma passagem pequena, mas emocional. Um farol na escuridão. Nos episódios seguintes, muitas vezes, focados no problema da semana, não perdemos de vista o mistério maior. A trama principal da temporada. Como peças de um grandioso quebra cabeças sendo montado com paciência. Instigados por episódios sempre engenhosos e movimentados.

A Discovery chega a Federação embalada com expectativas dissonantes. A tripulação da nave vem com alegria e esperança. Prontos para colaborar e reestabelecer a ordem do mundo que deixaram para trás. A Federação enxerga a Discovery com desconfiança e cautela. São estranhos que surgiram de um passado remoto. Precisam provar a suposta lealdade e do que são capazes. Enquanto o líder, almirante Charles Vance, desaprova os improvisos de Burnham. Os fãs trekkers vão ao deleite de visualizar as diversas naves do futuro. Inclusive, uma nova versão da Voyager. A Federação vive em alerta desde que surgiu uma força dominante e oportunista que representa a vilania e a luta pelo poder. Sua antítese. Chama-se Corrente Esmeralda. Uma aliança de raças escravagistas e opressoras. Meio que o império intergalático. A base de todo o conflito.

É interessante, como a série Discovery não nega o passado. Resgata elementos das diversas séries anteriores por meio de ressignificação, buscando sempre novas direções e nova roupagem. Como exemplo, as raças Órion, os Andorianos, antes tratadas como curiosidades na série clássica, ganham novas dimensões. Assim como os trills, oriundos de Deep Space Nine. Além de outra passagem pelo Universo do Espelho, relacionado ao Guardião da Eternidade, visto antes, na série clássica, no sensacional episódio, A Cidade à Beira da Eternidade, trazendo um novo rumo para a traiçoeira Imperatriz Philippa Georgiou (Michelle Yeoh), que pode servir de ponte para a futura série, Seção 31.

Outro momento marcante ocorre, sem dúvida, no episódio Unificação Parte 3. As primeiras partes não são da série Discovery. Na verdade, as partes 1 e 2, são episódios memoráveis da série Star Trek – A Nova Geração (1987–1994) e retratam a busca do Embaixador Spock para aproximar Vulcanos e Romulanos, inimigos seculares. Em Discovery, o episódio serve de continuação e situa as duas raças no século 32, sem considerar os eventos retratados na franquia Star Trek nos cinemas, conhecidos como a linha temporal Kelvin. Mantendo Discovery do mesmo lado do Universo de todas as séries Trek, separados da franquia recriada por JJ Abrams. Os elementos da cultura de Vulcanos e Romulanos são explorados com a reverência que as raças merecem. Resgatados de forma inteligente pelas ligações de Burnham com os Vulcanos.

Como curiosidade, o diretor de clássicos da ficção científica como Scanners – Sua Mente Pode Destruir (1981), Videodrome – A Síndrome do Vídeo (1983) e A Mosca (1986), David Cronenberg, ganha uma participação pra lá de especial na série, como o enigmático Kovich. Talvez, uma referência ao igualmente enigmático Kosh, da série Babylon 5 (1993–1998). Ele é essencial para entender os problemas enfrentados por Georgiou e deve conquistar mais espaço em temporadas futuras.

A Discovery reserva os últimos três episódios para desvendar o grande mistério da trama, entregando muita ação e suspense, inspirados no clássico da ação, o filme Duro de Matar (1988), em que o detetive John McClane (Bruce Willis) fica enclausurado no mesmo ambiente limitado, junto com sequestradores e prisioneiros, num jogo de gato e rato, como destaque para um aparelho de rádio, escadas e elevadores. No clássico, o ambiente é um edifício. Na série, o ambiente é a nave Discovery, com Michael Burnham como McClane, enfrentando os sequestradores da Corrente Esmeralda e os prisioneiros, seus amigos da tripulação. Ela é forçada a tomar medidas extremas se quiser sobreviver, em tempo hábil de salvar outro grupo de amigos abandonados num local remoto, de grande risco, além de precisar salvar toda a Federação do confronto derradeiro.

Star Trek: Discovery, Michael Burnham/CBS All Acess/Netflix – Reprodução

É, naturalmente, cansativo ver Burnham como essencial para salvar o dia em quase todos os episódios, sem dar muita chance para que soluções importantes sejam encontradas pelos demais personagens. Isso poderia funcionar na série clássica em que o destino da Enterprise era decidido apenas por Kirk ou Spock. Mas com a Discovery, temos mais personagens coadjuvantes sendo melhor desenvolvidos. Faria mais sentido ver um maior protagonismo dos demais nos episódios, além das poucas situações em que são valorizados. A série também peca, em todas as suas temporadas, por construir problemas de grande complexidade, mas resultar em soluções convenientes ou simplistas demais. Mesmo assim, a resolução da terceira temporada tornou-se mais aceitável e emocional, pelas consequências inesperadas. O que abre caminho para uma possível quarta temporada ser considerada como mais um recomeço.

As aventuras da terceira temporada de Star Trek: Discovery no futuro distante mantém o legado de Jornada nas Estrelas, apesar de altos e baixos de alguns episódios e soluções que poderiam ser melhor elaboradas. A nova série não renega o universo onde está inserida, resgatando, de forma inteligente, múltiplas referências. A série faz a ponte entre tudo o que foi realizado antes e mantém a promessa de um futuro promissor para toda a franquia. Resta aos fãs desejar vida longa e próspera a Star Trek: Discovery. Que venham novas temporadas.

Classificação:

Veja críticas de algumas das produções ligadas à Netflix:

As três temporada de Star Trek: Discovery encontra-se no catálogo da Netlifx.

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