THEM – 1º Temporada (2021) | Crítica

Em uma das suas entrevistas, o icônico Robert Bresson diz que toda obra deve, primeiro, ser sentida para depois ser entendida. Mas ao mesmo tempo, temos que lembrar que sentimentos não são fatos. “THEM” é a nova produção da Amazon que não se justifica nem para ser sentida e muito menos para ser entendida. Confira prévia:

“THEM” é uma antologia que acompanha uma família negra nos anos 50 tentando se adaptar a uma vizinhança totalmente branca que não faz questão de disfarçar o seu racismo. Não tem muito o que ser analisado sobre a trama. Ela se utiliza de arquétipos e trejeitos cinematográficos do gênero de terror e suspense dos anos 50/60 para gerar a narrativa de desconforto e incômodo no telespectador.

Depois que Jordan Peele mostrou que a cultura negra tem força para ser produto da cultura pop em seu grandioso Corra! entramos em um breu onde a causa negra se tornou objeto de obsessão. A problemática disso tudo é que não existe um preparo para que o que vai ser mostrado e dito em tela e o que recebemos são um monte de questões que não são bem desenvolvidas e parecem ser puro fetichismo.

Mas sendo direto ao ponto, a série é um puro show de sadismo visual se utilizando da dor negra para tentar gerar algum tipo de reflexão em quem está assistindo. Uma coisa que se torna totalmente um tiro que saiu pela culatra porque o que vemos em tela são excessos visuais em cima da causa negra, onde as pessoas brancas não se identificam com aqueles brancos em tela e se consideram superiores a eles e os pretos que assistem ficam incomodados com o excesso de exploração que os corpos negros passam para gerar belas cenas cinematográficas.

Não sei se é possível ser tão insensível e sair da visão pessoal para conseguir absorver “THEM” como o seu criador, Little Marvin, parece querer que a série seja vista. Na verdade é possível sim se você for uma pessoa branca e não compreenda o que é ser preto num mundo que evoluiu explorando corpos negros e que até hoje trata esses corpos como escória, matando a rodo e jogando em massa em prisões sem se importar muito.

Comparações com “Lovecraft Country” é algo que inevitavelmente a série vai receber. A diferença é que a série comandada por Misha Green busca uma subversão do gênero (e também do autor racista do título) em uma constante quebra de padrões e o que vemos em tela é algo que além de desenvolver bem o tema relacionado, nos entrega uma proporção certa entre horror e catarse.

Em “THEM” o horror com os corpos negros são explorados de forma extrema e sádica. E se os corpos brancos fossem explorados da mesma forma na tela até que poderia ser justificado como uma linguagem que está sendo respeitada e seguida. Vemos em detalhes crianças sendo agredidas, corpos de mulheres pretas serem abusados por pessoas e instituições e até mesmo o declínio da sanidade de um homem preto que está sofrendo constantemente com o racismo estrutural que o impossibilita de ser o pai e marido que sempre quis.

Cabe aos corpos brancos da série um resguardo. Suas mortes e abusos não são filmados em detalhes, a câmera parece ter o cuidado de não mostrar a violência que eles estão e vão sofrer. Até mesmo arcos de empatia e humanização de pessoas brancas que proporcionam dor e sofrimento físico e mental para pessoas pretas são orquestradas como se fossem convencer quem está assistindo.

Sei que estamos diante de uma era onde as questões sociais só conversam com aqueles que fazem parte da esfera que sofre com isso. E constantemente lembrar para pessoas brancas que elas são brancas é motivo de ataques. Mas assim como nós pretos carregamos nas costas os séculos de violência e exploração que nossos antepassados sofreram, os brancos também carregam a culpa do que seus antepassados fizeram a nós.

Não acho que “THEM” funciona como série. Não é uma série que recomendaria para alguém assistir. Não me incomodo com violência muito menos com sadismo cinematográfico. O que me incomoda aqui é a forma errada que a série se permite ser consumida. As pessoas brancas vão achar que basta assisti-la para aprender como não devem ser racistas no dia-a-dia e as pessoas pretas só vão sofrer ao ver seus corpos serem explorados mais uma vez.

Nós pretos queremos contar histórias sobre nossas vidas, sobre nossos amores, até mesmo sobre nossas dores sentimentais como todos os brancos sempre puderam ver na tela desde que as mídias visuais foram criadas. Não precisamos de algo ou alguém querendo nos lembrar constantemente da dor que é ser preto numa sociedade racista porque todo preto sabe disso todo dia quando acorda e escolhe sair da cama para viver sua vida.

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Veja críticas de algumas das produções ligadas a Amazon Prime Video:

A primeira temporada da série de terror, “THEM” encontra-se no catálogo da Prime Video.

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